O dinheiro das bets não paga o sofrimento das famíliasEditorial | Presidência do SEAAC de Bauru e Região
O SEAAC apoia a proposta anunciada pelo presidente Lula de pôr fim às bets . A decisão merece ser debatida pelo que acontece fora das plataformas: dentro das casas, no orçamento dos trabalhadores e nos serviços de saúde.
Há quem defenda as apostas pelo que elas arrecadam em impostos, publicidade e patrocínios. São interesses econômicos reais. Mas a conta não termina aí. Em 2025, a receita bruta das empresas de apostas chegou a aproximadamente R$ 37 bilhões, segundo o Ministério da Fazenda. Trata-se do valor que ficou com as operadoras depois do pagamento dos prêmios. Para quem perdeu, e sse dinheiro pode ter feito falta no aluguel, na alimentação ou nas contas do mês .
O impacto alcança também famílias de baixa renda. Um levantamento do Banco Central identificou que, em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas de famílias inscritas no Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões por Pix a empresas de apostas. Transferência não é o mesmo que perda definitiva, nem o estudo afirma que os recursos vieram do benefício. Ainda assim, o dado revela como as apostas chegaram a orçamentos que já exigem escolhas difíceis todos os dias.
Como representantes dos trabalhadores, sabemos que uma dívida raramente fica restrita a quem a contraiu. Ela afeta a tranquilidade da família, a convivência e a capacidade de planejar o futuro. Quando apostar deixa de ser uma escolha controlada, a pessoa pode perder dinheiro, esconder o problema e continuar jogando na esperança de recuperar o que perdeu. O Ministério da Saúde reconhece o endividamento, a ruptura de vínculos e a perda de emprego entre os danos associados ao jogo problemático.
Há ainda uma consequência que exige respeito e seriedade: a saúde mental. O Ministério da Saúde aponta risco aumentado de autolesão e suicídio entre pessoas com problemas de apostas e orienta os profissionais a investigar essa relação nos casos de tentativa de suicídio. Não existe uma contagem nacional segura que permita atribuir às bets um número específico de mortes. Isso não diminui a urgência de acolher quem sofre e prevenir novas crises.
Por isso, apoiamos a iniciativa do presidente Lula. Sua concretização deve vir acompanhada de medidas eficazes contra plataformas clandestinas, proteção aos consumidores endividados e acesso ao tratamento pelo SUS. A proibição, sozinha, não dispensará esse trabalho.
A arrecadação gerada pelas bets não apaga o custo suportado pelas famílias. O país precisa avaliar o setor também pelas dívidas, pela perda de renda destinada a necessidades básicas e pelo sofrimento que chega aos serviços de saúde. Na posição do SEAAC, a saúde e a dignidade de quem trabalha devem pesar mais nessa decisão do que o faturamento das plataformas.
Lázaro José Eugênio Pinto
Presidente do SEAAC de Bauru e Região






